molhando a palavra
lá na esquina, é a frente do mar
naquele bar Maresia me assento soberbo
‘visão naquela menina’
pego a mesa de quina
e me sento a chorar
depois de fumaças e gim, solto o verbo
modelo palavras traquinas, sofridas, cretinas
molhadas de água do mar!
levanto-me,
a cadeira grudada levanta-se comigo
estarei nela colado? cai o copo ainda cheio
entorno a garrafa no chão...
solto a voz em sofreguidão...
cadê você, Beatriz? te afastei, Beatriz?
sem ela sou encosto, farrapo
sem ela, sem mar, sem gim, sem mim...
onde está você, minha menina?
não está aqui, mas ainda está em mim
e não há copo cheio e nem verbo rasgado
que me faça esquecer o teu gingado
onde está você, minha menina?
te sinto no meu rosto, feito maresia
te procuro em cada esquina...
vem pra cá meu bem!
cambaleio minhas esperanças
perturbando-me o acordar dos
passarinhos e o cantar do sol a nascer
hoje choro pelo amanhã
que nem sequer me viu
apenas de certeza certa eu tenho
que não mais no próximo carnaval
eu verei a Beatriz
quando a saudade me assaltar
e a lágrima insistir em cair
voltarei à mesa do bar
ao cheiro de fumo e maresia
sem sua visão ali na esquina
no fundo de um copo vou me afogar
em palavras úmidas desaguar
eternizando a menina em poesia