Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

profano jazz

o dia ainda não nasceu...

pelo som ambiente, John Coltrane

nos desperta ao som de

Softly as in a Morning Sunrise

acordamos em transe para o amor...

percussão, contrabaixo e piano, seguem

o ritmo do seu corpo, ou serão suas curvas

sendo embaladas pelas notas

acordes, acidentes e escalas?

e daí?

vamos dançar!

mãos, bocas e poros se exploram

ansiosos, trêmulos, raivosos

incertos como os compassos do jazz

que embalam e aquecem a madrugada

de nossa lua cheia ou minguante

sei lá...

meus pulmões ávidos pelo seu

cheiro de fêmea, suas carnes descompassadas

como a harmonia desse sax rasgado

envolvem-me com a ânsia de serem

fatiadas pela lâmina inflamada do desejo

nossos suores escorrem

como gorduras que caem e provocam

estalos de festa no carvão em brasa

confissões indizíveis saltam

dos seus lábios; seu corpo derrete

na profanação mais sagrada que pode haver

fogo que queima

em perdição

em loucura

que redime nossos

corpos na sacralização desse altar

onde oferecemos em sacrifício

nossa sede

nossa fome

nossa libido

Coltrane rasga com seu fôlego

esse saxofone sensual

indecente e profano...

nos fundimos numa voluptuosa entrega

de corpos derretidos que se fundem

qual metal na chama da purificação

exalando o incenso de um sacrifício carnal

resta-nos um sorriso bobo, pervertido

arfante, desejoso de outra dança

um beijo mordido e molhado

faz trepidar brasas

ainda incandescentes

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 07/03/2023
Alterado em 12/06/2026
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