Abraço de Vó
É sabido que as conversas aleatórias perto de um escritor, podem ser matérias-primas das mais nobres. No entanto, este caso superou qualquer ingrediente que eu já tenha recebido dos deuses da literatura. A conversa que ouvi, quase me levou a um nocaute emocional.
Retornava do trabalho, mentalmente exausto e querendo chegar em casa no menor tempo possível, porém o trânsito não colaborava. Retirei os fones dos ouvidos, pois até os acordes da boa MPB já estavam me deixando irritado, e fechei os olhos, na esperança de tirar uns minutos de cochilo e abstrair um pouco do cansaço.
A tentativa da soneca foi interrompida por um garoto vendendo balas de goma, num ônibus relativamente cheio. Ele, que aparentava não ter mais do que dez anos, se comunicava surpreendentemente bem, com um bom vocabulário e já demostrando um talento nato para ganhar a atenção do público.
Tal observação acabou por me despertar daquele torpor de final de dia. Fui abduzido por divagações e curiosidade a respeito daquele menino. De onde vinha? Como era a sua família? Será que ele vendia balas para ajudar nas despesas da casa, ou já teria, naturalmente, uma veia empreendedora para ganhar o próprio dinheiro?
Em qual horário ele ia para a escola? Se fosse pela manhã, provavelmente acordava muito cedo e ainda cansado do trabalho. Conseguia se concentrar? Se estudasse à tarde, sairia ele correndo para pegar as balas e vender? Seria essa a sua rotina de todos os dias? De uma forma ou de outra, aquilo não me parecia bom, mas o seu jeitinho esperto dizia que ele não devia ser um mal aluno. Talvez um pouco bagunceiro, mas dos bons!
Gostei do garoto! Mas o que me causaria maior impacto, ainda estava por vir.
Logo que terminou de vender as balas, sentou-se ao lado de uma menina que, até então, eu não havia notado. Ela também trazia uma caixinha de balas, o que indicava que talvez fosse uma irmã, prima, ou apenas uma colega de ofício.
Os dois engataram uma conversa que me acordou de vez, pois falavam num volume suficiente para que eu pudesse ouvir de onde estava.
Ele disse, de maneira eufórica e feliz, que pela manhã a sua mãe havia anunciado que se mudariam em breve, pois a casa em que viviam era muito pequena. E quando a garota perguntou de quantos cômodos era a casa, ele contou que tinha apenas o banheiro, um cômodo que era dividido entre sala e cozinha e um terceiro, que era o quarto onde todos dormiam. Apesar de ter relacionado, não registrei na memória o número de pessoas que ali moravam.
Com a espontaneidade das crianças, a menina, que aparentemente era mais velha do que ele por uma diferença de um ou dois anos, disse, com orgulho, que na casa dela havia cinco cômodos: banheiro, cozinha, sala e dois quartos. E sem abrir parágrafo, com um tom de voz praticamente inalterado, emendou: eu quero chegar em casa e dormir com a minha avó.
Aquela mudança de rumo da conversa foi tão drástica e surpreendentemente fora de contexto, que até o menino se assustou: ‘como assim, dormir com a sua avó?’
─ Dormir com a avó é tão bom, né? O cheiro da avó, o abraço da avó... é diferente! É tão gostoso!
A resposta dela saiu da maneira mais linda e sincera que uma criança consegue expressar. E aqui sim: coube parágrafo, travessão e emoção. Na verdade, nem soou como resposta; ela disse para si própria, disse como quem declama e sente, sem se importar se ele estava atento ou não.
Fui arrebatado! Aliás, acho que fui ejetado para um túnel do tempo, onde constatei que não havia lembranças semelhantes na minha vivência. Me peguei revirando as memórias que tenho da única avó que conheci, percebendo que não me lembro do cheiro dela e que as poucas lembranças que trago, não são impregnadas de poesia.
Também me vi pensando na relação da minha filha com as suas avós. Cada uma, a seu modo, tem sua forma peculiar de demonstrar carinho pela neta. Quais serão as suas memórias afetivas?
Voltei a olhar a menina do ônibus, que continuava a sua conversa, sem que eu conseguisse me concentrar para prestar atenção, pois divagava nos meus próprios pensamentos.
Aquela garota precisou sair para vender balas e, provavelmente, não leva uma vida fácil. No entanto, mesmo precisando abrir mão da sua infância, ao anoitecer ela tem um motivo feliz para querer chegar logo em casa.
Aquela menina de fala feliz e acelerada, possui uma referência de afeto que a ampara, que dá significado à sua vida e faz qualquer sacrifício valer a pena.
Depois de um dia difícil, por muitos ignorada e não poucas vezes xingada, ela tem os braços da avó para se aninhar. E eu imagino que ela adormece sorrindo. Talvez com um rostinho cansado, mas feliz.
Para além de qualquer objetividade, fiquei encantado pela poesia contida na voz daquela garota, e que ficou reverberando em mim: “Dormir com a avó é tão bom, né? O cheiro da avó, o abraço da avó...”
O menino ficou em silêncio. Parece que não compreendeu. Talvez não traga consigo uma referência tátil de afeto, ou não tenha sido fisgado pelos seus sentimentos. Pode ser que tenha ignorado aquele detalhe para voltar a sonhar com a casa nova. Não é possível saber...
Eu compactuo da sua possível incompreensão. Um nó na garganta me cala. Sou levado a pensar nas memórias que ajudo a construir, nas existências impactadas pelos meus gestos, nos significados que imprimo pelo caminho que sigo.
No coração, pedi aos céus para que o talento daquele menino não seja desperdiçado. Espero que ele consiga driblar as incertezas da sua realidade, seja feliz com a sua família na nova casa, prospere de forma digna e encontre o afeto que talvez lhe falte.
Também pedi por saúde e vida longa à avó daquela garotinha-poeta. Desejo que, quando adulta, ela possa transmitir a alguém o mesmo carinho que hoje recebe e que nunca deixe de sonhar e sorrir quando for dormir.
Conto publicado na coletânea "Bendita Existência - O essencial do existir"
Imagem gerada por IA