Elos
Imagino nossa existência como uma complexa combinação de ciclos. Alguns ciclos se sucedem, outros se constroem em paralelo. Esses ciclos formam os elos de uma corrente repleta de ramificações, onde a irregularidade define a singularidade da vida de cada um de nós.
Alguns elos são fortes, quase inquebráveis, enquanto outros são frágeis e pouco resistentes. Estes últimos precisam ser preservados de choques intensos, pois podem fragilizar toda a corrente. Neles estão contidos os nossos traumas, as incompreensões, culpas, inadequações e a não-aceitação.
Alinhados – embora nem sempre bem-organizados e, muitas vezes, entrelaçados – estão os elos dos amores vividos, dos possíveis e não aproveitados e das decepções amorosas. Quando esses amores mal resolvidos se tornam elos sequenciais numa mesma corrente, é natural que surjam pontos de tensão nas junções. Não raro, um único elo sustenta vários pingentes. E haja malabarismo para evitar problemas!
Houve um tempo em que, aparentemente, alguns elos eram mais robustos, garantindo eles a integridade do restante da estrutura. Os elos do casamento estável e da carreira única são bons exemplos dessa percepção de estabilidade.
Nem sempre as comemorações de bodas de prata, ouro e diamante significavam uniões felizes. Em muitos casos, eram retratos da conveniência, da dependência econômica ou emocional; em outros, uma fachada bem cuidada para ocultar desejos reprimidos pela sociedade. Quantas casas não foram adornadas com belas fotos que, na verdade, retratavam apenas a hipocrisia de uma família infeliz?
De modo semelhante, a vida profissional também teve seus reveses. Sua aparente solidez provinha da limitação de alternativas, e quem se aventurava em determinada carreira concentrava ali suas conquistas, até a aposentadoria, que representava o fim do ciclo de utilidade servil, pois muitas vezes, a carreira seguida não era, de fato, a desejada. Entretanto, esses são os caminhos da vida – nem sempre flores, muitas vezes, apenas o possível para aquele momento.
O tempo passou, surgiu uma nova geração, e vivemos uma época em que os elos, embora resistentes, são mais curtos e as correntes mais flexíveis, tanto nas configurações familiares quanto nas profissionais. Não se pode mais afirmar, como antes, que apenas a morte será capaz de separar as pessoas que se unem, como também é incerto afirmar que o sustento virá sempre da mesma fonte.
Atualmente o elo profissional carrega muitas ramificações, que representam as qualificações e competências necessárias ao ofício. Caso a motivação diminua, é possível planejar uma transição de carreira e recomeçar. Cada vez mais encontramos profissionais que se reinventam e fazem da pluralidade de suas experiências seu diferencial.
Na composição da minha existência, os ciclos profissionais representam um desafio maior. Embora eu tenha trocado de endereço poucas vezes, foram muitas as variações internas de função.
Porém, conforme a corrente se alonga, as oportunidades de mudança se tornam raras. A experiência acumulada passa a competir com a energia e as inovações trazidas pelos mais jovens que ingressam no mercado. Por outro lado, a convivência entre gerações distintas pode ser muito benéfica para as organizações. É necessário, de ambos os lados, respeito pela história, pelas vivências e pelas inovações. Todos ganham com um ambiente plural.
Escrevo por experiência própria. Desde o início da minha vida profissional, busco dar o melhor de mim e me destacar em cada atividade, mas gosto de mudar. Contraria-me ficar muitos anos no mesmo departamento, acumulando vícios e perdendo atualizações. Gosto da adrenalina do desafio, especialmente quando posso desafiar a mim mesmo.
Recentemente, consegui uma nova mudança. Realizar esse movimento próximo dos cinquenta anos exige habilidade, um bom networking e, claro, motivação e abertura para o novo. É fundamental transmitir confiança à nova equipe, assegurando que haverá ganhos com a experiência adquirida ao longo da carreira, e que não encontrará alguém resistente e preso ao passado. Sinto-me desafiado, renovado, revigorado e vivo. Este é o meu momento.
Acredito que aceitar o encerramento dos ciclos, permitindo a abertura de outros, contribui para nos manter mentalmente saudáveis. O contato próximo com as novas gerações nos atualiza e amplia nossa visão de mundo, obrigando-nos a revisitar velhos conceitos e a compreender melhor as transformações que nos aprimoram como seres humanos.
Apesar de toda a assimetria, dos pontos de fragilidade, da instabilidade e, por que não, das incoerências, será gratificante se, ao nos aproximarmos do último elo de nossa corrente, olharmos para nossa trajetória com a certeza de que cada ciclo contribuiu para significar uma bendita existência.
Crônica publicada na coletânea "Bendita Existência - O essencial do existir"
(Imagem: pxhere.com/pt/photo/941266)