Fuxico
Fim de tarde em Canindé...
— Cê viu, Jão? Maria, aquela dos três fio, cada um de um ômi, se mudou daqui. Diz que agora é escritora de sucesso, enricou e foi morá lá no bairro das casa chique.
— Como sabe disso, Tereza?
— Isso é assunto na vizinhança faz uns quatro dia! Tão falando que começou quando o moço do jornal veio aqui pra saber como a gente vive.
— Como assim? Que dia?
— Ah, já tem uns dois ano que o tal jornalista veio. Ficou conversando com um, com outro. Quando entrou na casa da Maria, ela mostrou uns caderno pra ele. O rapaz leu, gostou e levou prum pessoal importante lá da cidade. Agora fizeram um livro com as coisa que tava escrito nos caderno dela e, do nada, ela começou a ganhar uma nota preta.
— Ora, o que pode ter de tão importante no tal caderno?
— O povo tá dizendo que ela conta um monte de coisa aqui da favela. À boca pequena, tão falando que ela revelou até os nome das pessoa daqui. Tem um monte de gente com raiva!
— Ah, então deve ser por isso que outro dia os minino dela já ia correno e chorano porque alguém jogou porcaria de pinico neles!
— É isso mesmo, Jão! Acho que foi por isso que ela resolveu ir embora.
À noite, no Santana...
— Você viu os favelados que se mudaram pra cá, Rodolfo?
— Fiquei sabendo, Beth. Tomara que não tragam problemas para o bairro.
— Verdade. Essa gente, mesmo ganhando dinheiro, nunca será como um de nós.
— Vamos observar. Qualquer coisa, a gente toma providências junto à associação de moradores.
— Vou avisar às vizinhas também.
* Este texto integra a coletânea "Entre o Orun e o Ayê - Carolina e Abdias"
Imagem: Blog Gente que Aprende