O Milagre da Gentileza
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia,
você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia.
Como vai se explicar, vendo o céu
clarear de repente, impunemente?
Como vai abafar nosso coro
a cantar na sua frente?”
(Apesar de Você – Chico Buarque de Holanda)
Por três meses, me dediquei à leitura do livro Os Miseráveis, um clássico do romantismo francês, escrito pela pena humanista de Victor Hugo (1802-1885) e publicado em 1862. Na extensa obra, repleta de contextos históricos da época, como a Batalha de Waterloo e a Insurreição de Paris de 1832, Victor Hugo penetra no cerne dos paradoxos humanos.
Ao acompanharmos a vida de Jean Valjean a partir do ponto em que nos é apresentado, somos confrontados com questões profundas que mexem com os nossos próprios valores, percepções e julgamentos.
Valjean ficou preso por 19 anos. Cinco, pelo furto de alguns pães, e o restante, em regime de trabalhos forçados, devido às várias tentativas de fuga. As quase duas décadas de prisão foram suficientes para tornar quase impossível a sua ressocialização. Logo na saída, percebeu que a sua reintegração na sociedade não seria nada fácil, dadas as primeiras recusas para uma hospedagem ou até mesmo para conseguir alimentos. No entanto, a única porta que se abriu para um prato de comida e uma noite de sono, mudaria a sua vida para sempre.
Monsenhor Bienvenu, o bispo de Digne, acolheu o moribundo com um prato de comida e uma cama quente para dormir; um homem bom, que acolheu como acolheria a qualquer um dos filhos de Deus, sem qualquer questionamento. Com o coração endurecido pelos anos de reclusão e pela crueldade das pessoas, Jean Valjean fugiu de madrugada, levando as pratarias da casa do bispo. Pela manhã, detido por policiais e reconduzido à residência episcopal, não só foi perdoado, como recebeu mais dois castiçais de prata. Monsenhor Bienvenu afirmou aos homens da lei que os objetos eram um presente e que, por descuido, os castiçais de prata haviam sido esquecidos. Ao se despedirem, o bispo disse nos ouvidos de Jean Valjean: Meu irmão, lembre-se de que já não pertence ao mal, mas sim ao bem. É sua alma que acabo de comprar; furto-a aos maus pensamentos e ao espírito de perdição para entregá-la a Deus.
Pronto. Um milagre se operou ali. Em outras palavras, o bispo repetia a ordem de Jesus à mulher que acabara de escapar de um apedrejamento: Eu não te condeno; vá e não peques mais. A partir daquele dia, Jean Valjean passou a ser, para os outros, uma fonte de cuidado, um porto seguro — ainda que ele próprio estivesse sempre em perigo. E o mais importante, também passou a ser uma fonte de perdão – que o diga o inspetor Javert, que não suportou tamanha grandeza de caráter, resignação, gentileza e amor que emanavam daquele fora-da-lei.
Victor Hugo foi muito feliz ao parafrasear o texto do Evangelho de São Lucas logo no início do livro:
“Mas lembre-se que haverá mais alegria no céu pelo rosto lavado em lágrimas de um pecador arrependido, do que pelas cândidas vestes de cem justos.”
(Os Miseráveis – 1ª parte, Livro II)
Se no século XIX Victor Hugo nos apresentou a redenção pela misericórdia, no Brasil do século XX a mesma lógica reaparece, agora grafada nos muros do Rio de Janeiro.
Nos idos de 1960, em Niterói, após um incêndio acometer o Gran Circus Norte Americano, matando centenas de pessoas, inclusive crianças, José Datrino cria um jardim para, a partir daquele lugar que viu uma tragédia, proferir palavras de consolo para as pessoas. O jardim ficou conhecido como Paraíso Gentileza, enquanto José Datrino se transformou no Profeta Gentileza.
Mais tarde, nas suas andanças pela cidade do Rio de Janeiro, o Profeta Gentileza espalhava a sua mensagem de que Gentileza Gera Gentileza. Até hoje vemos a sua mensagem escrita em camisetas, cadernos, muros, enfim, a mensagem se espalhou pelo país e se mantém viva. O princípio que opera, na prática, é aquele aplicado pelo Monsenhor Bienvenu e replicado por Jean Valjean.
Lenine cantou:
A vida é tão rara, tão rara...
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma,
Eu sei, a vida não para...
(Paciência – Lenine)
Me pego pensando nesses momentos em que o corpo pede um pouco mais de alma e todas as histórias citadas anteriormente me vêm à lembrança. Creio que são nos momentos em que damos maior vazão à nossa alma, que transbordamos amor, empatia e perdão.
Quando o corpo pede um pouco mais de alma, abrimos mão dos nossos desejos em prol de ver brotar um sorriso em outro rosto. Deixamos de fazer por nós para suprir a necessidade de alguém. Quando o ser é menos corpo e mais alma, a gentileza recebida se transforma em gentileza repartida e o fardo de dores que porventura carregamos, torna-se pílulas, distribuídas em palavras, em um abraço, em um olhar, em um silêncio acolhedor que cura.
Mas o que torna o final feliz, é saber que a centelha divina habita em todo ser humano e, não importa quão apagada esteja a chama, ela está disposta a brilhar tão logo seja oxigenada por alguém que transborde gentileza e dê vazão à alma.
Por fim, me emociono ao reconhecer que somos, todos, ora miseráveis esperando um olhar, uma mão e uma palavra virem ao nosso socorro, e ora portadores da gentileza que, estendida a outros, resgatará vidas da miséria gerando mais gentileza, formando assim um ciclo virtuoso, uma corrente do bem, capaz de alterar destinos e melhorar esse nosso mundo.
Adélia Prado escreveu: não se faz poesia apenas com palavras: poemas, sim, mas quem precisa deles?
Parafraseando Chico Buarque, apesar de nós mesmos, sempre haverá outro dia que, sem explicação e impunemente, esbanjará poesia.
Versemos!
* Texto escrito para a coluna A Poética do Olhar, do blog Bendita Existência (benditaexistencia.com.br)
Imagem: (Google - domínio público)