entediado, interrompeu a leitura
as molas do ônibus rangiam desafinadas
na medida exata do caos, o trânsito
sem fé, alguém segurava um folheto de orações
pálpebras sonolentas pendiam dos rostos
tudo igual
a qualquer dia de feira
de pé, escorada na catraca
segurava duas bolsas
seus olhos brilharam
passou as mãos pelos cabelos
um sorriso bobo lhe abriu os lábios
que palavras saltavam
da pequena tela?
o livro permanecia fechado
seu olhar pousou naquele sorriso
que ignorava as molas
o trânsito, o tédio
a descrença, as pessoas
o desconforto das bolsas
aquela visão à sua frente
precisava ser eternizada
os olhos, os lábios
a alegria, as mãos no cabelo
o jeito de se aconchegar
ao desconforto da catraca
a desconexão com o ambiente
poesia sensual, explícita
materializada bem ali
poema sutil e transparente
invisível e escancarado
silente o suficiente
para despertar do torpor
um insípido e sonolento poeta
num dia de feira qualquer
às seis e meia
da manhã