Jefferson Lima em Prosa & Verso
"perceberás a maciez por baixo desta pedra... para uns tosca, para outros, preciosa "
Textos

Questão de Fé

 

Gosto de observar as diversas manifestações de fé das pessoas. É algo que admiro, me intriga e provoca reflexões.

Dia desses, numa sequência de imagens, Nayara, uma colega linda e gentil, divulgou sua visita ao santuário da conhecida cidade paulista de Aparecida do Norte. Para um observador comum, não havia nada de extraordinário nos registros: a basílica vista do alto, a multidão de fiéis na passarela, fotos com a família no átrio da igreja e a imagem da Santa no lugar sagrado.

Aos meus olhos, porém, aquelas cenas ganharam um significado especial. Em um dos registros, Nayara seguia de joelhos, avançando pelo corredor central do santuário em direção à imagem da Padroeira. Num segundo momento, ajoelhada em frente à Santa, com as mãos apoiadas na grade que separa o altar da nave do templo, rezava emocionada. Havia ainda a fotografia de uma amiga, que não pôde estar presente, mas que ali foi representada para ser lembrada nas orações diante da Mãezinha.

Na legenda da postagem, o agradecimento pelas graças alcançadas e um pedido de perdão: "Quanta emoção e gratidão! Perdão por, muitas vezes, mesmo com uma fé gigantesca, sentir medo." Essa declaração me remeteu ao episódio do apóstolo Pedro, que, mesmo andando sobre as águas em direção a Jesus, titubeou em sua fé e começou a afundar.

Quem nunca?

Outro dia, observei que um passageiro do ônibus que uso para ir ao trabalho levava algumas folhas impressas para leitura. Numa rápida olhada, vi que os textos eram orações para diferentes santos e motivos. No mesmo coletivo, um senhor seguia compenetrado, mexendo os lábios numa reza, com um terço nas mãos. Cenas simples, porém, carregadas de significado!

Nos meus caminhos cotidianos, não raro, vejo oferendas em alguma esquina. Até algum tempo atrás, as via com um misto de preconceito e curiosidade. No entanto, após ter lido o belo romance Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, com todo o seu embasamento histórico, meus olhos se abriram para a compreensão de outra manifestação de fé, que, devido à forma como chegou até nós, ganhou conotação pejorativa no inconsciente coletivo do nosso povo.

Também preciso citar a Rafaela, uma garota super gente boa, descolada, protestante e progressista. Dentro da sua comunidade de fé, ela atua traduzindo cânticos e sermões para a Língua Brasileira de Sinais. No entanto, a Rafaela foi mais longe, transformando a inclusão dos surdos em uma bandeira, uma causa pela qual viver. Ela conduz as pessoas para além da leveza das canções e dos jargões das pregações. Hoje, os surdos que a acompanham nos cultos também participam de festivais de rap e trap, peças de teatro e qualquer outra atividade que se apresente.

Rafa, como a chamamos, entendeu que, para ser luz e sal, é preciso iluminar as sombras e temperar fora do saleiro. Por isso a mensagem de inclusão fez toda a diferença no seu ambiente de trabalho, onde se tornou referência no ensino de LIBRAS e na tradução dos vários eventos para os funcionários que precisam desse apoio. Ela é uma garota que pratica e demonstra sua fé de forma leve, sem qualquer traço de pedantismo ou afetação. É lindo de ver!

Assim como a Rafa, também venho de raízes protestantes. Ainda muito pequeno, aprendi sobre a importância de crer e a certeza de que não estamos sós no universo.

Fui batizado na Igreja Católica, por padrinhos maravilhosos, porém cresci em uma comunidade pentecostal, devido à conversão da minha família a essa fé, muito antes que eu deixasse as fraldas.

Muito do que sou foi forjado durante a vivência na igreja. O jeito como me expresso em público, sem temer auditórios e microfones, só foi possível através da participação ativa no grupo de jovens. Um talento desenvolvido com muito sacrifício, pois não foi fácil deixar o adolescente tímido para trás.

A convivência evangélica também influenciou meu gosto musical, pois foi nas aulas de música que, inicialmente estudando clarinete, me apaixonei pelo saxofone e me tornei amigo de uma turma que gostava do bom e velho jazz. Enquanto tocava dobrados e hinos da Harpa Cristã, ouvia muito David Sanborn, Wynton Marsalis, Spirogyra, Phil Driscoll, entre outros. Também bebi da fonte da boa música cristã, como João Alexandre, Jorge Camargo, Grupo Logos, se estendendo, posteriormente, a Stênio Marcius e aos contemporâneos Estevão Queiroga, Lorena Chaves, Marcos Almeida e Carol Gualberto. Evidentemente, muitos cânticos congregacionais também fazem parte da minha vida desde então, e ainda me entrego à nostálgica essência de naftalina quando me deixo levar para além de um rio azul, ouvindo as músicas do Conjunto Voz da Verdade.

Entretanto, apesar de toda nostalgia, e mesmo tendo uma veia poética aflorada, sou regido por um perfil bastante racional. Afinal, mesmo na minha poesia, caracterizada por versos livres, é possível perceber a presença, nem sempre implícita, de um raciocínio lógico e pouco lúdico. E foi essa racionalidade que me levou a sair das quatro paredes do mundo eclesiástico.

Nunca consegui desenvolver uma fé mística, embasada em milagres e justificativas sobrenaturais para os acontecimentos naturalmente contraditórios da trajetória humana. Muitos destes, inclusive, provocados pela irresponsabilidade das nossas próprias ações.

Minha fé no Sagrado e na Eternidade se mantém inalterada, porém se manifesta de forma íntima, nas pegadas discretas que tento deixar por onde passo. Acredito na manifestação do Divino no trato com as pessoas, na escuta sincera, no abraço que acolhe, na mão que se estende sem alarde, nas ofertas que não geram posts nem likes, pois acontecem longe das câmeras, afastadas das luzes e das multidões dos templos.

Paradoxalmente, nutro uma profunda admiração por aqueles que cultivam o misticismo dos diversos ritos. Deleito-me ante a beleza das liturgias como manifestações artísticas e humanísticas, apesar de não conseguir compreendê-las como um mecanismo capaz de comover o Eterno. Afinal, o que sobra em nossos dias é um amontoado de métodos com tantas maneiras de convencer, conquistar, ludibriar e até barganhar com a divindade.

Imerso numa crença repleta de dúvidas e desconfianças, aceito a emoção que me invade ao ver a expressão sincera da fé de Nayara, ajoelhada diante da Mãe Aparecida; inspiro-me na imagem do passageiro com suas páginas de orações impressas e no terço, cujas contas vão passando na cadência de uma alma que ora suplica, ora é só gratidão; caminho pela estrada das oferendas com respeito e contrição; alegro-me ao ver o Deus em quem acredito manifestar-se na energia contagiante da Rafa, enquanto na minha racionalidade, compreendo que não posso negar os mistérios do sobrenatural.

E assim vou seguindo, versejando poemas e imprimindo as reflexões da minha inquietude, reconhecendo e reverenciando os rastros do Sagrado nos diversos caminhos desta bendita existência.

Imagem: Gerada por IA para esta crônica.

Jefferson Lima
Enviado por Jefferson Lima em 14/09/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários
Site do Escritor criado por Recanto das Letras